quarta-feira, outubro 15, 2008

Vomitório - A lucidez ou a cegueira do Centro de Educação da UFPE


Este texto, tomo o cuidado de adiantar, pode ser visto e lido como uma resposta. Uma resposta não somente ao texto do caro André Lucena. Trata-se talvez de um apanhado. Um apanhado entre este, de André e aquele, do nosso camarada Anísio, a saber, O modelo magistral de aula: por uma crítica ao Centro de Educação da UFPE e, Ensaio sobre a lucidez, respectivamente.

O primeiro começa com uma tentativa de ilustração sobre a angústia, o segundo, também. No primeiro, as dificuldades de um aluno diante da mediocridade de alguns professores iniciam o açoite. No segundo, podemos ver, se olhos usarmos, os suaves lampejos de uma agonia: a cegueira da lucidez.

Extração de impressões; império da Democracia (com “d” maiúsculo?). Ao discorrer acerca do Centro de Educação da UFPE, talvez tenha André esquecido que poderia ter ido além: até às cadeiras da pós-graduação, por exemplo. Sabias tu, Raboni, que lá, as aulas de quatro horas são poucas para lanches e sorrisos. Isto mesmo! Bem, sei que devo esclarecer.

Aquelas salas, munidas de cadeiras acolchoadas e condicionadores de ar barulhentos, comportam alunos que buscam desastrosamente a comunhão entre o não-conhecer, a eles particular, e o orgulho de se poderem reivindicar, a si próprios, como os pensantes que superarão o saber conteudista. O professor, profundamente preocupado em manter o que eles apelidam de humanização da prática pedagógica, colabora com a ilusão: sorri de suas próprias piadas, cruelmente elaboradas em torno da ignorância generalizada, e todos os acompanham. E entre a primeira e a segunda parte das xurumelas, um lanche, meia hora de descontração. Tímida alienação.

E se alguém aparece, caro André, somente querendo enfatizar a existência de outros lugares, senão aqueles onde habitam os inanimados e incapazes reprodutores da verdade, da evidência – enfim, os jornalistas do que ouso apelidar de sem-sentidismo – se alguém assim aparece, com esta naïveté, não demora a ser atacado pelos zumbis do decoreba. Eles decoram tudo. Decoram que Paulo Freire não morreu, que o professor deve ser humanizador, que o conteúdo deve ser massacrado.

Até aí entendo tua angústia, grandiloqüente Lucena. Mas, pergunto-te, e aquele texto do nosso amigo Anísio? Onde está ele? A lucidez dependeria então do destrinchar da cegueira alheia? Aqueles cegos do Centro de Educação não estariam somente fazendo usufruto de seu estado? Tentarei traduzir.

Reivindico contigo: tentemos mostrar que não posso falar de pau de jangada se não falo de pau que bóia.

Os alunos do CE estão contentes com a farsa dos professores. Os professores contentes com a letargia dirigida dos alunos. Ambos riem das piadas sobre coisa nenhuma. Que concluir: lucidez? Conforto na cegueira? “Em terra de cego todo mundo é cego”?

Não queiramos trazer respostas. Contentemo-nos, sobriamente, a apontar os critérios para que construamos tais questões. Deixemos de lado as possibilidades acerca das múltiplas possíveis definições em torno da educação, e mesmo ao redor de um “possível objeto epistêmico próprio (...)” dela. Retenhamo-nos à sua apresentação.

É ela, a Educação, finalmente, um projeto mundial? Ocidental? Também não precisaremos de resposta para estas questões. Para nós, Lucena, Anísio, bastará saber que há um modelo, e que este acha suas raízes na virada de mesa Pascal/Kant. Sabemos que o modelo econômico atual tem uma origem. Sabemos que existem critérios. Sabemos que o modelo magistral existe. Onde existe ele? Lá mesmo onde os enxadristas reuniram-se em meados do século dezoito para reformular as regras do jogo econômico: na Europa.

Este seria o ideal? Mas, se o modelo magistral europeu existe justamente para viabilizar o nosso, o nosso deste dependeria? Se o um não existe sem o outro, o outro não existe sem o um. Estaríamos nós ainda dependentes do eurocêntrico debate Epicuro x Lucrécio? Ainda perdemo-nos a perambular, desesperadamente, por entre as bolorentas alamedas do obscuro abismo do ressentimento? Lugar entre os deuses? Lugar dos deuses? Ao inferno com a base européia! “Je me révolte, donc nous sommes”, já dissera Camus. Querer Epicuro ou Lucrécio é legitimar os magistrais europeus. Legitimá-los é legitimar-nos a nós mesmos e nosso absurdo Centro de Educação. Não propor, não propor: eis a lucidez.

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